à espera dela até o quotidiano nos arrombar a porta de casa

Perguntei-lhe o que é que se passava com aquele cabelo, porque estava, sinceramente, uma coisa de meter dó, qual feno abandonado no meio do prado… “esqueci-me de pôr o champô” – disse ela – “estava a tomar banho, a minha mãe entra-me pela banheira dentro, a dizer que houve outro atentado em Inglaterra. só passei o corpo por água…”
Já percebi que estás bem, meu bem, mas deixa-me reiterar um pouco. Há atentados terroristas todos os dias. Não quero aborrecer-te com as coisas horríveis que acontecem fora da europa. Não faz o meu género. Só acho que já nos devíamos ter habituado aos atentados… A ciência tem vindo a provar que, muito em breve, será possível retardar a morte através do rejuvenescimento das células. Caminhamos rumo à vida eterna, quem poder pagar por uma. Esta Terra não foi feita para albergar tanta gente. Vivemos cada vez mais e melhor. Temos de morrer. O terrorismo islâmico, bem como o genocídio de que em breve os muçulmanos serão vítimas, por via da islamofobia, não são mais do que sintomas da natureza a dizer-nos que temos de morrer. Temos de morrer mais.

À parte disso, espero que não morras numa destas brincadeiras. E espero não morrer também. É isto que eu sou, ando à procura de uma consciência universal, mas não consigo deixar de prestar atenção ao teu cabelo. Gosto muito dele, com ou sem champô.

à espera dela até o quotidiano nos arrombar a porta de casa

do you belive in unicorns?

unicorns 3

espero ter morrido e não ter dado por nada. arrastei-me pelo chão, noite dentro, com a cabeça virada para cima. dizem ser assim que caminham os mortos, de olhos bem abertos, com o céu sempre escuro na retina. se sentires comichão nos pés, podes ter a certeza que é o escombro que fizeste do meu corpo a atravessar-se por eles, mas por favor, não pares de dançar. não consigo ouvir a música desde que me deste a provar a euforia e a desolação na mesma noite, no mesmo trago, mas se continuares a dançar talvez consiga ouvir as cores do teu vestido, escutar o eco dos movimentos que imprimes no ar. arrasto-me pelo chão e encaixo os teus pontapés em si bemol. dança meu amor! dança. os mortos não ouvem. os mortos não falam. os mortos rastejam discretamente,  sob a treva dos calcanhares dos vivos, e levam a cabeça virada para cima, com a inocência de quem nunca nasceu…

E ali estava eu de costas para a vida, quando vejo o rosto dela, empossado de divindade, a aproximar-se do meu corpo defunto. Veio soprar o juízo final aos meus ouvidos surdos: “Sai do chão caralho…” Disse-mo sem repúdio, apenas carinho e palavrões. Levantei-me. Não era de dia nem de noite. Era um bar… Afinal não estava morto. Já tinha repetido aquele número noutras ocasiões; atravessava-me rasteirinho pelo pavimento da danceteria, fintava as impiedosas pernas dos bêbados, e, ao alcançá-la, tentava beijar-lhe os pés, ou o que deles estivesse a descoberto, à frente daquela gente toda. É um exercício assaz embaraçoso, o que me levou a pôr uns óculos escuros para o empreender. Daí até achar que estava morto foram vinte centilitros de rum… Não somos muito diferentes das avestruzes no que toca à forma como lidamos com os embaraços, mas é para falar de unicórnios que aqui estamos, não é verdade? Já de pé, aproximei-me dela, baixei os óculos até à ponta do nariz e perguntei: “Do you belive in unicorns?” “I belive in everything except in unicorns.” “I don’t belive in meninas virgens… mas que as há, há…” “Podes tirar o unicórniozinho da chuva que hoje não levas nada. A tua noite foi ontem…” “O que é que mudou de ontem para hoje?” “Essencialmente…? O teu penteado. O que é que te passou pela cabeça?” “Essencialmente…? Uma tesoura.” “E complementarmente, posso perguntar?” “Podes. Confundi as bodas de fígaro com o barbeiro de sevilha… Não é lamentável?” “Sempre achei que tivesses um péssimo ouvido musical… e um péssimo gosto já agora.” “Obrigado. Eu sempre achei que a música que fizeram entre a idade média e o Shostakovich fosse toda igual.” “Isso podia ser uma afirmação bastante corajosa se fizesses a mínima ideia do que estás a dizer. Assim é só presunçoso.” “Obrigado. Antes que perguntes, sabes o que é que faziam os unicórnios na idade média?” “Eu não ia perguntar…” “…eu sei, mas eu quero responder. Sabes o que é que faziam os unicórnios na idade média?” “Não faço ideia…” “Abriam os cintos de castidade das moças!” “Idiota… isso eram os ferreiros…” “… os ferreiros abriam os cintos de castidade das mulheres dos outros, os unicórnios abriam os cintos de castidade das mulheres dos ferreiros.” “ah ah ah… que criaturinhas habilidosas…” “não são nada, são uns desengonçados, acredita. Os cintos é que eram uma porcaria… 90% poliéster 10% fibra de coco. Nunca ouviste dizer? Em casa de ferreiro espeto de pau…” “Olha que isso é um assunto sensível. Não ponhas unicórnios a abrir cintos de castidade à chifrada.” “À chifrada não… com os dedinhos!” “Os unicórnios são equídeos, querido, não têm dedos funcionais.” “Mas tu afinal acreditas em unicórnios?”

Podíamos ficar nisto o resto da noite… Que interesse havia em dizer coisas com sentido? Já esvaziámos o sentido de todas as coisas. Somos todos piores que a melhor versão de nós próprios, muito mais sacanas que os sacanas dos nossos pais, e ainda mais sacanas que os sacanas dos nossos avós. Estamos constantemente a perder o azul do mar. Era muito simples, era… era assim: colocavam-nos à disposição uma folha em branco e meia dúzia de lápis de cor. O mar era azul e pronto… fim de conversa. Nunca deixaram que nos faltasse o lápis de cor azul. Também nunca nos sugeriram que lhe déssemos outra tonalidade. Certo dia, tiram-nos os lápis, a folha em branco e dizem-nos o mundo.
– Vive-te!
– Sonho-me?!
– Não! Vive-te!
Colocaram-nos a todos diante do mar, em filinha pirilau, e deixaram-se estar à retaguarda, a observar-nos, enquanto chafurdavam na areia e nos sujavam os ouvidos com aqueles arremessos de ideais saibrosos. Com a comichão que aquilo fazia começámos logo a dispersar; uns diziam que o mar era verde, outros que era cinzento… houve quem dissesse que não tinha cor “porque reflete a cor do céu”, e havia ainda os que diziam que era cor-de-burro-quando-foge. Eu para não passar por mentecapto disse que era cor-de-rosa às bolinhas amarelas, pois a única coisa que não podíamos dizer era que o mar era azul… Mas de facto o que eu gostava mesmo era que ele voltasse a ser-nos azul, não porque em algum momento o tenha sido para mim, mas porque em algum momento o deixou de ser para todos. Perguntei-lhe: “Queres falar sobre a cor do mar?” “Não, isso cansa-me, cansa-me mesmo…” Ela sabia exatamente a que é que eu me referia.

Fomos para a rua apanhar o ar fresco das cinco da madrugada e retomámos com os unicórnios: “So, do you belive in unicorns?” “I belive in everything you tell me…” Disse-me isto, por estas palavras, e foi-se embora. Sabe-se lá para onde. Sabe-se lá para quando. Disse-lhe tanta coisa. Expliquei-me tanto… caladinho é que eu devia ter ficado! Dizer-lhe apenas “espero ter morrido e não ter dado por nada”.

do you belive in unicorns?

esse magnífico exercício hidráulico

Schiele_-_Neugeborenes_mit_angezogenen_Knien

Neugeborenes mit angezogenen beinen (1910) – Egon Schiele

É ao domingo que costumo confirmar a minha idiotice lacrada na cara dos outros idiotas. Uma toalha de motivos axadrezados macerada em vómito. Um desabamento de terras. A minha vida inteira. Estou farto. A indiferença é a mãe e a morte de tudo o que escrevo, de tudo o que digo. Ajo por inação. Não ajo… Observo. E é sempre assim.

Encostei-me ao balcão, pedi uma cerveja, e deixei-me estar ali a observá-los. Odeio-os a todos. São muito parecidos comigo os domingueiros de Lisboa. Abdicaram de muita coisa. Abdicaram de um estilo de vida para terem uma vida. Não trabalham à segunda, alguns não trabalham à terça. Talvez nem sequer trabalhem… Andam por aí. Já rodaram cidades dos quatro cantos do mundo sem um tostão no bolso, dormiram em hostels sujos, dormiram no chão, conheceram lugares. Fumaram e beberam as paisagens dos trópicos e dos círculos polares. Não fossem tão desmazelados diria que eram iguais a mim. Fizeram tudo o que eu fiz. São uns chatos. Eu cá gosto é dos meus amigos normais, os que não saem de casa ao domingo. O meu amigo que é engenheiro das nove da manhã às seis da tarde, o outro que mete conversa com toda a gente porque gosta genuinamente de pessoas, ainda aquele que casou aos vinte e sete, porque é um homem sério, e os homens sérios não esperam pelos trinta. Gosto deles. Mimam-me muito e sabem dar um arroto sem daí levantarem grande questão filosófica. Eu só complico, mas eles acham extraordinário tudo o que faço. Quando aterrei no continente asiático, conheci uma resma de europeus “extraordinários”. Eramos todos. Estávamos todos a viver versões diferentes da mesma história. A complicá-la para variar. Eles também se despediram dos seus empregos, terminaram os seus relacionamentos, foram-se embora. Há pessoas que são mais do verbo ir. Estão sempre a ir. Podem até ir novamente para o lugar de onde vieram, mas nunca regressam. Vão, sempre. Fomos, por tempo indeterminado, maturar as nossas ideias de merda para lugares que, de tão longínquos, nos obrigassem a pensar diferente. Partimos todos pela mesma razão; temos medo de morrer no lugar onde nascemos. Regressamos todos por razões diferentes. No meu caso, regressei porque me acabou o cacau. Gastei o que tinha e o que não tinha. E o que não tinha era bem mais do que o que tinha. Gastei-o todo… e nisto encosto-me ao balcão, peço uma cerveja, observo os fregueses, e reparo que as pessoas normais estacionaram o domingo e o resto da vida. Este bar está cheio de gente esquisita, e não mudou rigorosamente nada desde que aqui entrei.

Decidi dar-lhes uma oportunidade, ou aceitar a oportunidade que me deram, e parar de os censurar, ali, encostado ao balcão. Não conhecia ninguém. Um domingueiro simpático pagou-me uma aguardente e sugeriu que me juntasse à pândega. Passámos cerca de hora e meia a repetirmo-nos uns aos outros, sempre as mesmas histórias, as mesmas utopias. Só mudavam os nomes e os lugares. O que me amaciou o espírito, foi uma rapariguinha que volta e meia nos passava a ferro: “Vocês são é uns burgueses de merda! Havia de vos faltar pra comer… Desde quando é que gastar dinheiro em viagens é menos fútil do que gastá-lo noutra porra qualquer?” Chamava-se Mariana. Vociferava, depois encostava-se à parede, sozinha, e ficava calada; nós continuávamos a tertúlia sem nos contradizermos, e passado quinze minutos lá vinha ela incendiar-nos novamente. Havia alguma razão nas coisas que dizia. Gostei dela. Não tinha os dentes muito bonitos, mas paciência, eu também não tenho… O que me encantou foi mais a agudeza de espírito, do que a geometria mandibular da Mariana. Vi que não bebia nada e dirigi-me a ela para lhe oferecer uma bebida: “Olha, estes gajos são uns merdas, e eu também sou, mas vais ver que se beberes qualquer coisa ficamos todos adoráveis.” E ela “Não posso.” E eu “Porquê?” “Estou a amamentar.” “A sério?… onde é que deixaste a cria?” “Deixei-a com o pai.” “Vivem juntos?” “Não, vivemos separados.” Era assim, simultaneamente analítica, curta, e grossa, esta Mariana. “Vais ter uma noite insuportável –  disse eu – se fosse a ti pirava-me já para casa.” Ela tirou-me a aguardente da mão e bebeu-a toda de penalty. Devolveu-me o copo vazio e encostou-se ao meu rosto dizendo: “eu é que sei quando é que vou pra casa.” Daí para a frente, foi um não parar de beber até ao extremo da abjeção. Malfadado leitinho… A páginas tantas, o tipo que me tinha oferecido a primeira aguardente, sugeriu um after em sua casa. Ele devia levar estranhos a casa todos os domingos… Esta semana calhou-me a mim, à Mariana e a mais uns quantos.

Era uma casa grande, com pé-direito alto, inserida num prédio de linhas austeras que presumi ser Estado Novo, anos 40/50, estilo português suave. Por dentro era terrível, parecia que o tipo tinha montado um escritório na sala estar. Até cadeiras com rodinhas havia… Corolário da insipiência estética ali manifestada, surge, no centro da sala, uma toalha de motivos axadrezados sobre tampo da mesa. O português ia ficando menos suave, à medida  que avançávamos de divisão em divisão.
As horas passaram a correr. Já era de dia quando comecei a subir a Rua Damasceno Monteiro a caminho de minha casa. Podia ter sido uma noite triunfal, se a Mariana, a incendiária, não me tivesse vomitado nas calças. Estávamos todos sentados no sofá, ela encostou-se, pousou subtilmente a cabeça no meu colo, e deixou-me massajá-la na nuca e no pescoço. Entesou-me a boca ali contígua. Não sei se foi por isso, ou se em algum momento fechou os olhos, mas, assim que a senti golfar, já tinha o fígado dela todo feito em papinha entre as minhas pernas. Acho que ninguém reparou. Peguei nas minhas coisas, encostei-me à mesa da sala, esfreguei as calças à toalha de motivos axadrezados, só para limpar a maior, e fui-me embora.

A rua vinha toda aos S’s. Devia estar podre de bêbado esse Damasceno Monteiro. A meio do caminho lá dei com uma pastelaria aberta. Três senhoras, uma preta e duas brancas, muito caladinhas a tomar o pequeno-almoço, cada uma no seu regaço. Pouco passava das sete da manhã. As senhoras iam trabalhar. Tinham cara disso. A preta comia um salgado, as brancas comiam pastéis de nata. Todas acompanhavam com galão. “O que é que toma amigo?” Sem conseguir responder, deixei-me estar a olhar enevoadamente para o simpático senhor, que do lado de lá do balcão reiterou: “Temos cerveja.” Acenei com a cabeça. A primeira gota caiu-me imediatamente nas fraquezas. Foi direitinha à uretra. Empreendi um esforço hercúleo na retenção de me mijar ali mesmo, encostado ao balcão da pastelaria. Evitei-o a todo o custo. As calças iam para o lixo, desse por onde desse, e uma secreção a mais não faria diferença nenhuma (esta, ao menos, provinha das minhas entranhas). Mas fiquei apreensivo… pensei no salgadinho, nos pasteis de nata e nas três senhoras que estavam prestes a iniciar a semana, diante de um espetáculo escatológico no qual não tinham o mínimo interesse. Era o estilo delas, acordar cedinho e tomar o pequeno-almoço na pastelaria da esquina. Eu estava ali a magoar-lhes a vista. Peguei na cerveja, apertei a bexiga como me foi possível, e dirigi-me em grande esforço, pé ante pé, até à casa de banho. Ao contrário das casas de banho femininas, os urinóis não são lugares de socialização, são lugares de poesia. Foi tudo muito rápido. Pousei a cerveja no patamar de porcelana do urinol (junto ao autoclismo), desapertei a breguilha e comecei a mijar. Foi um jorro copioso e veemente. Quando julguei ter chegado a meio, deu-me uma valente sede, e trata de mandar outra golada. Entrou em circuito direto. Podia jurar que aquela dose de urina continha gás e quatro e meio de álcool. Estava a mijar a cerveja que bebia, tinha a certeza disso, eis senão quando sinto a terra tremer ligeiramente… Nunca tinha sentido a terra tremer. Com a mão esquerda agarrei-me à pixa, com a outra segurei a cerveja, e deixei-me estar por ali como se não fosse nada comigo. Tinha coisas importantes para terminar e não sabia qual ia ser a primeira, se a mija, se a cerveja. Acabou por ser o terramoto.

Ao sair, fechei a porta, encostei-me à entrada da pastelaria para perceber por que razão a terra havia tremido, mas ainda conseguia ouvir o chiar do autoclismo, nesse magnífico exercício hidráulico de empurrar a água para cima. É um som verdadeiramente dramático. Primeiro, a descarga irrompe sem subtileza nenhuma, feito cascata, sobre as paredes de porcelana, brancas, pontualmente nodoadas de humanidade. Terminando, a água sibila um suspiro nervoso, inquietante. Não a vemos correr, mas sabemos, pelo som, que se desloca clandestinamente para o depósito, onde aguardará a próxima descarga. Quando está prestes a terminar o seu percurso ascendente, o suspiro da água torna-se mais agudo. Parece mesmo que vai acontecer qualquer coisa de importante. E não. Silêncio apenas. Afinal não foi um terramoto. Desabou o muro de um condomínio privado situado nas traseiras da Damasceno Monteiro. Pergunto-me que espécie de estrume terão usado os responsáveis da obra, para cimentar uma edificação, cujas paredes viriam a desabar vinte anos volvidos… O prédio onde me encontrava, o da pastelaria, datava do século XVIII. A gaiola pombalina abana mas não cai. Vi aproximar-se um grupo de turistas japoneses, cerca de vinte, que acordaram antes das sete da manhã para se dedicarem a uma atividade de lazer. Os japoneses levam o lazer muito a sério, assim como levam a sério tudo o que fazem. Vinham acompanhados de uma jovem, presumivelmente lisboeta, que dava a entender ser versada na arte de contar historinhas a turistas… “Este edifício foi construído pelo Marquês de Pombal, depois do terramoto de 1755.” Ou muito me engano, ou Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º Conde de Oeiras e 1º Marquês de Pombal, não era propriamente o que se entende por empreiteiro da construção civil. Tentei abstrair-me do engodo com que a jovenzinha cativava a plateia, e concentrar-me somente no ruido do autoclismo que já quase não se fazia ouvir… Alguns turistas falavam de uma imponente estátua que avistaram através da janela do avião, durante a aterragem. Outros afirmavam estar hospedados em frente ao dito monumento, e terem notado certo aspeto simbólico no esplendor colossal da estátua, e na altivez com que a figura nela retratada, observava o dorso da cidade. Não são parvos de todo estes turistas. A jovenzinha rematou: “O Marquês de Pombal foi um grande político que salvou a cidade da catástrofe do terramoto, e modernizou o país inteiro!”
A miúda conseguiu galvanizar os turistas. Deixei de ouvir o som do autoclismo.

É verdade que se lá não estivesse a estátua desde 1934, talvez não tivéssemos tanta facilidade em sonegar as façanhas mais macabras do primeiro ministro de D. José, em detrimento da bajulação desmedida com que enaltecemos o lado mais nobre do seu legado. O Marquês tinha esse péssimo hábito de mandar queimar seres humanos. Seres humanos vivos, entenda-se. Só no massacre da Trafaria foram mais de cinco mil… Não falo dos Távoras, nem dos Jesuítas, que apesar de não merecerem a pira, não me admirava que fossem uns grandes filhos da puta. No massacre da Trafaria, um dos últimos episódios do seu bárbaro ministério, tratavam-se somente de pescadores. Eram, na sua maioria, jovens, mas também havia velhos e crianças. Nas palavras do Camilo, “ensaiavam uma república do outro lado do rio.” O que fizeram estes pulhas, para enfurecer o desequilibrado que ostentava o título de Marquês, foi muito simples… Os jovens pescadores recusaram-se a cumprir o serviço militar obrigatório para se dedicarem inteiramente ao seu ganha pão. Pescar e vender o peixe. Numa manhã de Janeiro de 1777, sob a tutela do Marquês, um destacamento guiado pelo Intendente Pina Manique (outro virtuoso…), ateou fogo sob as casas dos pescadores que morreriam queimados, cercados pelo incendio.

Numa manhã de Janeiro de 2017, ouvi uma cidadã portuguesa tecer ininterruptos elogios, a respeito de um déspota de quem, muito particularmente, poderíamos afirmar ter ceifado mais vidas que as que salvou. Mas a culpa não é dela. A culpa é da estátua. Os símbolos, tornados monumento de ornamentação pública, cumprem esse desígnio de, sorrateiramente, moldar o subconsciente coletivo. Fica o que interessa… Os tiranos de hoje são os benfeitores de amanhã, é tudo uma questão de perspetiva. É de quem o apanhar, enquanto o amanhã se adentra no hoje, e mais, e cada vez mais cedo. Volta e meia precisamos de culpar alguém para nos perdoar-mos a nós próprios. Desta vez inventámos um velhote que pinta o cabelo de cor-de-laranja. Não é melhor nem pior que nós, é feito do mesmo estrume. Não pode fazer mais mal à humanidade do que eu e a Mariana fizemos àquela criança. Amanhã vai beber o cálcio da degradação, o leite fresco do miasma onde eu e a mãezinha dela mergulhámos. Vai pagar por nós, o messias. Mas, não será o velhote, o tirano, também ele uma espécie de messias? É muito tentador, olhar para estas personagens que facilmente nos irritam, e nelas imputar todos os males do mundo. Serve para nos distrair-mos de nós próprios, dos nossos vícios de merda. Os nossos medos têm tantas cores, tantas formas… simplifica-nos a existência, podermos dizer que somos “anti-trump”. Não sabemos por onde ir, então escolhemos por onde não ir. Somos seres tão básicos… Somos medo e movimento, desde o princípio dos tempos, e nada mais. O bem e o mal apareceram depois. São até conceitos recentes, adjacentes ao advento da civilização, coisa recentíssima na história da nossa espécie, coisa insignificante na história do planeta. Gostava de poder afirmar que os seres unicelulares, são, enfim, medo e movimento. Mas não posso. Não percebo nada de seres unicelulares. O que sei é que os homens bons estão para os homens maus, como o silêncio está para o ruído, como os dias de chuva estão para os dias de sol. E se há os que temem o silêncio e os que temem o ruído, os que preferem os dias de chuva e os que preferem os de sol, então invalida-se já a ideia de bem e de mal. Pelo menos num sentido absoluto. Dizia um tipo bem mais inteligente que eu, montado numa estátua bem mais singela que a do Marquês: “não vejo qualquer diferença entre um terramoto e um massacre, senão a diferença que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal.” A indiferença depois do medo. Toda a indiferença do mundo! É a única coisa que tenho, desde que notei que a vida me desacontece. Deixei de querer saber onde é que isto vai parar… “Isto”, sabemos, não passa daqui.

esse magnífico exercício hidráulico

o último samurai do recreio (oh não, não, por favor, não me cortem o carrapito!)

Dei conta de umas manchas castanhas nos dentes, enquanto me olhava ao espelho numa destas noites frias de Janeiro. Não eram muito grandes, mas o impacto visual desagradou-me o suficiente, a ponto de dar comigo a raspar aquela merda com as unhas, invocando uma brutalidade desmedida. Ao fim de vinte e tal anos, o elemento roedor teve de prestar contas ao elemento ruido. Foi um triunfo memorável das unhas sobre os dentes! Quanto às manchas castanhas não saiu nada… Devem ter aparecido há algum tempo, encrostaram-se sem que desse por isso. De manhã carrego uns olhos enevoados, e à noite, apesar de ver com mais clareza, não tenho paciência para a autocontemplação. Por essas horas, o homem do outro lado do espelho está quase sempre bêbado, daqueles bêbados alegres que apetece bater… Será feliz? Pode ser e pode não ser. Um bêbado alegre faz figuras tristes, e nada disto tem a ver com felicidade. Este bêbado alegre é infeliz, digo eu, que olho para ele com uma repulsa muito própria. A tristeza e a alegria são estados de espírito que vão e vêm como as estações do ano. A forma como nos relacionamos com a felicidade é mais permanente. Ela reside em sermos tomados por uma certa inconsciência que nos coloque, não só onde desejamos estar, mas num lugar ainda melhor que esse, e por isso mesmo não espectável. Afinal, o que a consciência nos ensina, é justamente a sermos infelizes. Feliz, não se aprende a ser. É-se. Um prisioneiro tem, fora da cela, todas as possibilidades do mundo, ao passo que o homem livre tem o mundo, e fora do mundo não existem possibilidades. Ou inventa uma cela para ter onde se enfiar, ou permanece neste lugar de consciência, onde se veem coisas (veem-se muitas coisas…) e se vai perdendo a felicidade de vista. Sou feliz? Não. Estou onde queria estar? Absolutamente.

E depois de tanto raspar os dentes e ter reconhecido a vacuidade desse gesto, não pude deixar de recordar o estado asqueroso a que chegaram os dentes do meu pai. Quando olho para a dentição desse homem e recordo que partilhamos um código genético, chego a ter vontade de arrancar a boca com as próprias mãos. Mas talvez isto não se resuma tudo a genética. Talvez a medicina dentária possa salvar os minutos medíocres que passo em frente ao espelho.
– Com licença.
– Pode entrar e pode fechar a porta. Diga.
– Doutora, nos últimos meses apareceram-me umas manchas castanhas nos dentes.
– Quantas vezes lava os dentes por dia?
– Duas, às vezes três… às vezes uma.
– Bebe café?
– Bastante.
– Defina “bastante”.
– Quatro ou cinco bicas por dia.
– Fuma?
– Pouquinho.
– Defina “pouquinho”.
– Um maço por semana. Cigarrilhas.
– Não era de se deixar isso? Quem fuma um maço por semana é porque não precisa de fumar…
– Pois é doutora, mas sabe, eu acho que é justamente aí que reside a beleza da coisa.

Fez-se silêncio. A mulher olhou para mim durante uns segundos e disse:
– Acho que devia cortar o cabelo.
– Ahn? . . .

No final do século XIX, no Japão, deu-se uma renovação político-social que marcou a transição da era Edo para a era Meiji; em suma, o fim do longo feudalismo japonês. A reforma passava por modernizar a sociedade nipónica, que até à data se regia por um modelo protecionista, o que em tais geografias insulares é, por si só, até certo ponto, uma inevitabilidade. A classe que sai mais lesada desta renovação é seguramente a dos samurais. Por carregarem espadas à cintura, e puderem decepar cabeças sem passar cavaco às autoridades, representavam um anacronismo em tudo contrário à pretensa modernização. Para além do porte de arma, os samurais amarravam um totó no cimo da nuca, por forma a evitar que o capacete resvalasse com o atrito do ar. Fora dos campos de batalha, de cabeça ao vento, o carrapito designado “chonmage”, denotava o estatuto especial de que os samurais gozavam na sociedade japonesa pré-moderna. Em 1870, o governo do império Meiji, lança o decreto Haitorei que proíbe a utilização de espadas em público. Em 1871, numa clara tentativa de caça às bruxas, sai o decreto Dapatsurei, cujo propósito se resumia a proibir a utilização do carrapito (o chonmage), assim como se aconselhava aos cidadãos de sexo masculino que adotassem um penteado “moderno, ocidental”.   

. . . e a médica dos dentes repetiu:
– Sim, acho que devia cortar esse carrapito.
– Ahn?
– O totó, o puxinho, esse corno traseiro que parece que lhe vai a fugir!
– Mas acha mesmo que a solução para estas manchas castanhas que me apareceram nos dentes passa por cortar o cabelo?
– Eu? Não… Quem é que falou em solução para as manchas castanhas? Eu ainda nem lhe vi a boca…

Tenho ouvido certas considerações estéticas acerca de carrapitos, de tal modo grosseiras que chegam a roçar a perseguição. Se andasse com o cabelo solto, incomodar-me-ia muito mais (a mim e aos outros!). Prender o cabelo é essencialmente uma questão prática. Também podia andar com ele curtinho… mas não quero.

Vejo-me obrigado a incorrer numa generalização, que nunca é forma correta de se iniciar um argumento, mas para o caso pouco importa. Há dois tipos de pessoas: as que querem acabar com os carrapitos e as que se estão a cagar. Isto poderia ser irrelevante, por serem as que se estão a cagar, muito superiores em número, não fossem as primeiras, tão categóricas na adoção de um sistema, quase doutrinal, de excomungação do dito penteado. Deixem o meu cabelo em paz que ele há de cair a seu tempo. E dir-me-ão: “há assuntos bem mais importantes na ordem do dia…” Pois há, mas não me apetece falar sobre eles. Boa noite.

o último samurai do recreio (oh não, não, por favor, não me cortem o carrapito!)

fadinhos de amor e de ódio, e a cidade pintada por george grosz – parte 3

oLer parte 1 e parte 2:

https://dentrodepoucotempoestareivelho.wordpress.com/fadinho-de-amor-e-de-odio-e-a-cidade-pintada-por-george-grosz/

Suicide 1916 by George Grosz 1893-1959

Selbstmord (1916) George Grosz

 

Consegui livrar-me do dia 15 de Novembro de 2016, e da sarabanda em torno das colinas de Lisboa para onde esse dia fracassado me empurrou. Livrei-me do calor inusitado e das castanhas assadas. Livrei-me do São Martinho. Não tivesse chegado o Natal e ainda estaria a ruminar numa solução para estes fadinhos de amor e de ódio. Ah… deixá-los inacabados, era o que devia ter feito! Sufocar as palavras, amarrá-las à corda do esquecimento, cuspir-lhes em cima e deixar que a minha saliva podre deteriorasse cada letra. Cheguei perto. Quase as perdi, quase achei que as perdi. Voltei a encontrá-las mais tarde, em virtude de me ter livrado da sombra do décimo quinto dia do mês de Novembro. Estavam estampadas no semblante da multidão eufórica. Para quê tantos risos? Ou vomitava para cima deles todos, ou então… ou então engolia as palavras, sujas, tal como as encontrei.

Corria o dia 23 de Dezembro, véspera da véspera de Natal. Entrei numa loja perto do Intendente, onde se vendiam discos de vinil e livros usados. O dono era um tipo que ostentava uma barba em tudo semelhante à do Pai Natal, devidamente grisalha e volumosa, todavia, para que dúvidas não restassem, trajava como um rockabilly que acabara de estacionar um Ford Mustang na berma da route 66. O casaco de cabedal, a calça de ganga, a barba de Pai Natal. Um prato cheio… Tinha pouco tempo, pelo que me pus de volta dos vinis, excluindo a hipótese de vasculhar a velha livralhada, mas instantes depois, torci o nariz a tudo o que rodava a 33 ou 45 rotações por minuto. O que faz dos livros seres tão afáveis, é rodarem a um tempo imposto pelos meus dedos. Corri prateleira por prateleira sem esperança de encontrar nada em concreto. Na última, exatamente na última, lá estava ele. Um Céline! Um grande Céline, muito raro e em ótimo estado. Era a “Morte a crédito” traduzido pela Luiza Neto Jorge. Mais do que o César ou o próprio Céline, foi ela que me ofereceu este “bientôt je serai vieuxque tanto estimo. Procurava o livro há mais de um ano e nada… foi, até onde sei, o livro que mais quis na vida. Busquei-o junto de todas as livrarias, alfarrabistas, web sites, sempre em vão… e ali estava ele, encostado à prateleira de uma aparente loja de vinis. Arrepiei-me todo, fiquei radiante! Peguei nele, depois olhei para o Pai Natal que me proporcionou tamanha felicidade em pleno 23 de Dezembro, e comecei a rir desenfreadamente no meio da loja. Paguei, continuei a rir-me e saí. Na rua, um pouco por toda a parte, havia gente carregada de sacos de compras que ria desenfreadamente como eu. Naquele dia, na Austrália, na América e na Almirante Reis, uma certa tolice prazenteira tomou conta dos homens da minha espécie. Quando me deparei metido nessa maré intercontinental de euforia, fui acossado por uma náusea que rapidamente se me alastrou para um cansaço de pernas, uma ligeira apatia, e uma atitude beligerante que me tomaria conta do rosto até ao Dia de Reis. Apanhei o comboio para Rio de Mouro e fui passar o Natal à terra.

Ter vivido a vida inteira num subúrbio tirou-me alguma sensibilidade a respeito de estética. Deslumbro-me facilmente com o belo das coisas óbvias, e é-me difícil destapar o véu da beleza fundamental. Não fosse o teatro e mais tarde a literatura, seria um homem completamente perdido, e portanto feliz. Não há beleza nenhuma em Rio de Mouro, como em qualquer outro subúrbio. A beleza está nas cidades e no campo, sabemo-lo. O tecido suburbano não cresce, amontoa-se. Estas paisagens nascem justamente de um esforço humano – arquitetónico e demográfico – em esvaziar os lugares de beleza. Foi preciso desorbitar mais de dezassete mil quilómetros para aprender a observá-los de outra maneira. O que neles há de belo é muito ténue, e somente o vislumbramos tendo o à-vontade bastante para nos sentirmos confortáveis, e a estranheza suficiente para nos deixarmos impressionar pelas pequenas coisas.
Entrei numa carruagem qualquer, provavelmente uma das da frente, onde o opróbrio discorre pelos vagões, como o suor sujo do povo cansado. O regime da euforia vã, também se havia instaurando no semblante dos passageiros do comboio suburbano que partia com destino a Sintra. Sentaram-se duas crianças à minha frente e a mãe delas ao meu lado. A mais nova, menina dos seus 6 anos de idade, era a criança mais bonita que vi na vida. Foi o único sorriso que me prendeu por estes dias. Ela ria porque sim. Era preta e tinha umas tranças em espiral que rodopiavam em torno das faces de ébano, quais ramos de árvore em flor…! Os olhos grandes, detentores de um contraste hipnotizante entre o branco e o escuro, os lábios grossos, como não podiam deixar de ser, e o nariz, colocado meticulosamente entre a boca e os olhos, de porte aquilino, esse sim uma raridade, se considerarmos a herança étnica da jovem negra. A moça era detentora da simetria a que na estética ocidental nos acostumámos a chamar de beleza. Naquele momento, apeteceu-me fazer o que me apetece fazer sempre que vejo uma mulher bonita… tirar-lhe um fotografia e guardá-la para sempre. As fotografias fazem justiça à injustiça do tempo. Eu não sabia que tipo de velhice o futuro lhe reservava, nem em que momento ela deixaria de rir só porque sim, passando a gerir o riso, como eu, e os outros homens e mulheres da nossa espécie. Achei que a graça com que me deteve aquela criança, naquele momento, merecesse ser testemunhada.
A família saiu no Cacém, uma estação antes de Rio de Mouro.

No dia seguinte era o dia seguinte. Lá em casa, desde que deixou de haver crianças, despachamos o bacalhau da consoada em três quartos de hora. A última criança que passou a consoada lá em casa fui eu. Trocámos prendas, e às 21:30 fui levar o meu avô aos comboios. O velho ficou sem carro há uns dias, o que é uma excelente notícia para todos os peões e condutores desta cidade.
Tirei o bilhete e entrei com ele no comboio para lhe fazer companhia. Nisto, curiosamente, ao passarmos o Cacém, vejo entrar a família com quem partilhei a carruagem no dia anterior. A criança que me acicatou a retina, não se encontrava junto da maralha; apenas a mãe, o irmão e um homem que presumi ser o pai. Devia ter tirado a fotografia. Nunca mais vou ver aquela criança, e não há nenhum vestígio tangível que prove sequer a sua existência.
Passei parte da viagem a observá-los, até que o meu avô se sai com esta:
– Qualquer dia dou o peido mestre.

O meu avô trata a morte com uma enorme displicência. Quando eu era pequeno, perdi um tio e uma avó, e comecei a tratar o meu avô por tu. Quando eu era pequeno, o meu avô perdeu um filho e a esposa, e começou a tratar a morte com uma enorme displicência. O Pessoa perguntava a tipos como ele “se te queres matar, porque não te queres matar?” É uma pergunta fodida. Ficam duas possibilidades, ou te matas ou não respondes. Não responder é aceitar a dádiva, com a consciência, benigna, de um condenado à morte. Tenho tido o privilégio de ler as coisas incríveis que os outros escreveram, e colocado o corpo inteiro entre aspas. É lá que estou bem, enfiado nas margens anotadas. Está tanto frio… Escrever estas merdas ou tapar-me numa mantinha vai dar ao mesmo. A minha pele gelada encontrou qualquer coisa de fundamental na mantinha, na nuvem de tabaco sob o candeeiro da sala,  e num Camus de cabeceira. “A disponibilidade divina do condenado à morte, diante do qual se abrem, numa certa madrugada, as portas da prisão, e esse incrível desinteresse perante tudo, salvo a chama pura da vida, a morte e o absurdo, são aqui, bem o sentimos, os princípios da única liberdade razoável.” É preciso esticar a porra da vida, não sei bem para onde, mas é preciso estica-la hoje, não como consequência de passado e futuro, mas como acumulação de presentes. O amanhã não tem compromisso nenhum connosco.

Depois de deixar o meu avô em casa, e regressar à estação dos caminhos de ferro, questionei-me se deveria voltar para junto da minha mãe, ou ir para Lisboa. A sucessão de encontros e desencontros, mais a chachada do Natal, deram-me a volta à cabeça, como um canto de sereia que me impelisse a seguir, não só para Lisboa, mas exatamente para o dia 15 de Novembro, onde deixei esses retalhos intermitentes de uma cidade pintada por George Grosz. Sou tão idiota que entrei no comboio rumo a Lisboa-Rossio, sem pensar em mais nada. Era uma solidão quase dissimulada. Não era totalmente minha, nem me era de todo estranha. Precisava de seguir esse desígnio de ser um homem sozinho, metido dentro de um comboio suburbano às 22:30 do dia 24 de Dezembro. Era onde estava e onde queria estar. Procurei agarrar-me aos rostos desgostosos de quem sucumbiu a uma solidão contrariada. Sondei todos os olhos, de solidão em solidão, mas os passageiros à minha volta fizeram-me a gentileza de serem pessoas normais e resolvidas. Eram homens e mulheres que, como eu, despachavam o bacalhau da consoada em três quartos de hora e iam às suas vidas. Que sentido faria, celebrar, com tal devoção, o nascimento de Cristo? Se Cristo merecesse ser celebrado e deus existisse, então a mulher seria um ser sem dignidade, arrancado da costela do homem; essoutro mera plasticina nas mãos do grande artífice… E dir-me-ão os novos céticos: “Mas isso já não interessa nada. O Natal é o dia da família, é o dia de nos reunirmos em torno de uma mesa farta, de nos juntarmos aos que mais amamos e nos regozijarmos da presença uns dos outros.” Bravo! Como os invejo, e como os desprezo… Já não precisam de deus para serem felizes. Basta-lhes um bom ordenado, um amor correspondido e, no limite, acreditar em algo superior que não sabem, ou não querem bem saber o que é. Bela merda (aqui entre nós). Almoçam em pé, ou atrás de um computador, 364 dias por ano; jantam com os cornos enfiados na televisão, ou noutra porra qualquer definida em megapixéis, 364 dias por ano… dir-me-ão os grandes céticos, os homens secularizados: “O que nos faz felizes nesta quadra, é celebrar o amor, a família, é comer o bacalhau e os sonhos, é estarmos uns com os outros e partilharmos esta alegria”. Pergunto então, porque não o fazemos todos dias?
Quem nos garante, aos 26, aos 50, ou aos 78 anos de idade, que vamos estar vivos no próximo Natal? Não vos parece demasiado frágil, este corpo que habitamos, e demasiado elevadas, as espectativas colocadas nesse adiamento anual da felicidade? Vivemos num mundo dotado de liberdade e de gravidade. Se uma substância mais pesada que a que compõe os nossos ossos, cair, por força da gravidade, sobre os nossos ossos, o que acontece é que morremos. Todos os dias aprendemos novas formas de nos matarmos uns aos outros. Um homem normal, pega num carro normal, com quatro rodas normais, acelera, e transforma-o numa arma mortífera. É desta fragilidade que somos feitos. Puta que pariu! Nem o vosso amor nem o vosso ódio. Não quero nada. Quero que me deixem ir no meu regaço, junto destes homens e mulheres que encontrei no comboio, e que, como eu, não são especialmente felizes em torno de uma mesa cheia de gente e de comida. Não fazemos sequer ideia de como é que se é feliz. Somos pessoas, milhões de conjuntos de células que apanham comboios. Montes de estrume sobre rodas para lá e para cá. É tudo o que sei.

Quando cheguei à estação do Rossio, passei pelo torniquete e senti que um vulto se atravessava por trás de mim. Aproximou-se do meu ouvido e disse “tem cuidado”. Depois passou à minha frente. Não lhe vi a cara. Era um homem de sobretudo cinzento, e, de costas, aparentava ser bem mais velho que eu. Confesso que tive algum medo, por isso fiquei a observá-lo de longe, nas suas passadas rápidas e desconchavadas, até o perder de vista e abandonar a estação.

À medida que subia a Calçada do Carmo, fui deixando de ver gente a meu redor, até que o delicado ruido das luzes elétricas, em fazer-se ouvir, me anunciou o completo abandono em que a rua se encontrava. Cheguei ao Largo Camões ainda não era meia noite. O vazio era inarrável… diante de mim, o coração da cidade de Lisboa, sem carros, sem táxis, sem tuk tuks, sem elétricos, sem pessoas na rua ou à janela. Ninguém. Era eu, e a estátua de Luís Vaz de Camões adiante.
Fazia tenções de me sentar por ali e ficar a olhar não sei bem para quê nem sei bem para onde. Aproximo-me, e quando estou já bem perto, vejo sair de trás da estátua o homem que passara por mim no torniquete do comboio. Vem em minha direção a toda a velocidade – o largo completamente vazio – e já quase junto a mim revela o rosto. Durante um segundo olhamos nos olhos um do outro. Após a troca de olhares, ele faz-me uma razia e diz exatamente a mesma coisa que dissera antes: “tem cuidado”. Passa por mim a toda a velocidade e começa a correr.
– FILHO DA PUTA!!! – Gritei eu. Corri atrás dele, mas apenas escaços metros – a covardia deteve-me o passo. Estava cheio de medo naquele momento, ainda para mais depois de lhe ter visto o rosto. Reconheci-o mas não consegui perceber quem era. Podia ser o senhor Joaquim, o meu antigo senhorio; apenas o vi uma vez, aquando da primeira visita ao casebre, tudo o resto tratámos por telefone durante os últimos três meses. Também me lembrei daquele homem a quem fechei a porta do elevador. A constituição física de ambos era semelhante, embora fosse altamente improvável que este se lembrasse de mim, depois de tão ténue contacto. Talvez não fosse ninguém.

Olhei à minha volta e percebi que não estava ali a fazer nada, não no Largo Camões, mas ali, no dia 15 de Novembro que afinal era 24 de Dezembro. Concluí que havia saído da Graça, numa tarde mais ou menos solarenga, e que, 39 dias depois, me dirigi até ao Largo Camões, com o intuito de concluir qualquer coisa, mas sem razão concreta para o fazer. Tinha de voltar para trás, não para Rio de Mouro onde deixei o Natal, mas para a Graça, de onde saí no dia quinze. Se houvesse alguma finalidade neste trajeto espaçotemporal (o que duvido), ela estaria forçosamente sedeada numa mantinha envolta por uma nuvem de tabaco, pelo que me cabia descer a colina das Chagas, subir ao castelo de São Jorge, e virar ligeiramente à esquerda subindo novamente.

Lá apareceu um taxista que muito se fez rogado, por ter cessado o seu jantar de consoada, e se encontrar a meio de um percurso. Ia buscar uns passageiros a Alfama, de lá seguia para o Areeiro, e já tinha mais pessoas à espera. Tive de implorar, e colocar-me nessa posição delicada que é a de fazer conversa com um taxista:
– Amigo, anda por aí um homem doido a atormentar as pessoas na rua.
– Ai sim…? Por acaso não estava vestido de vermelho com uma sacola à costas? – disse o taxista.
– Não senhor. O tratante trazia um sobretudo cinzento e vinha de mãos a abanar. Além do mais, ontem à tarde, tive o prazer de conhecer esse cavalheiro a quem se refere, e digo-lhe já que é um tipo bem mais tratável do que este sacana que me apareceu no meio da rua. Trabalha numa loja de livros em segunda mão ali para os lados do Intendente, e trata muito bem a clientela.
– Então diga lá o que é que ele lhe deixou no sapatinho?
– Um livro do Céline. Chama-se “Morte a crédito”.
– Hum… Também têm lá a “Morte a pronto pagamento”?
– Acho que não… Não me quer deixar entrar? Está um bocado frio.
– Como é que se chama?
– Ambrósio.
– Para onde é que vai?
– Vou para a Graça.
– Faça favor.

Antes de entrar na viatura, não resisti em olhar uma última vez para a estátua do Camões, e perguntar baixinho:
– O que é que eu estou aqui a fazer?

 

 

fadinhos de amor e de ódio, e a cidade pintada por george grosz – parte 3

« Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio, voltou-se para mim e disse: “Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras.”
Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita…
A fraternidade tem subtilezas.
Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de qualidade, mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, eu, o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.»

Bernardo Soares

fadinhos de amor e de ódio, e a cidade pintada por george grosz – parte 2

 

grosz

Der Liebeskranke (1916) – George Grosz

 

Estávamos famintos. Unidos pela fome. Separavam-nos, somente, as fronteiras teóricas da carne. Da nossa. Ela trazia na desidratação dos lábios pálidos, a pele farpada de secura. Eu tinha as cavidades do rosto muito adentradas, e uma barba volumosa que me escondia a magreza das faces. Salivávamos como cães. Beijámo-nos com o desespero de dois animais que procuram sobreviver um no outro. Se não a amar para sempre, amá-la-ei, com certeza, todas as vezes que o corpo me pedir pão, lembrando-me que tenho fome.

Não me convinha a colina de São Vicente de Fora, e para dizer a verdade, a colina de Santo André também não me levaria a parte alguma. Os últimos dias têm sido muito práticos, e se assim os queremos, é inútil que nos percamos em contemplações vãs. Quando os olhos nos cabem na ponta dos sapatos, só lhes devemos dar a corda estritamente necessária. Gosto demasiado da Mouraria para fazer dela local de passagem, posto isto, segui pela colina de São Jorge, que sendo a mais movimentada, é a que melhor encarrila o pedestre. Para quem mora cá em cima é isso mesmo: um mero eixo entre a poesia mais delicada, e a pasquinagem mais reles de Lisboa.

O elevador vinha cheio para cima, e eu que não tinha ninguém em meu redor, preparava-me para descer os sete andares sozinho que sempre é mais confortável. Deixei-os sair, entrei e carreguei no zero. Avistei um cavalheiro a uns 15 metros, que se dirigia ao elevador em passo de corrida, arrastando pelos braços lânguidos, dois sacos aparentemente pesados. Conforme estes lhe roçavam nas pernas desconchavavam-lhe o andar. Discretamente, fingi que não o vi e carreguei nas setas apontadas para dentro. A porta fechou-se. (7) O elevador do chão do Loureiro é um transporte privado e totalmente gratuito. Escrutinando unicamente o ónus urbano, posso considerar ser este, o meio de transporte mais eficiente de Lisboa. As artérias da polis têm feito um grande manguito aos cidadãos. Valham-nos estes curtos canais venosos! Sem eles a cidade estaria entupida de gordura. (6) Da última vez que vendi a dignidade ao metro de Lisboa e larguei um euro e quarenta cêntimos para mergulhar naquela alheira humana, conheci, em 10 minutos, mais hálitos distintos do que ao longo de todo o ano de 2016. O metropolitano de Lisboa, é um único lugar que consegue a proeza de, no mesmo metro quadrado, oferecer arrotos de vinho e de cerelac. É uma experiência escatológica e às vezes também é um meio de transporte. Estar perto de pessoas é estar perto dos intestinos delas. (5) A verdade é que os sindicatos se prostraram à geringonça. A cidade nunca esteve tão cheia de gente, os recursos do metro nunca foram tão insuficientes, mas não se ouve falar numa greve… numa manifestação… num ai… Se o PCP tivesse uma pasta neste governo, o metro até podia estacionar em cima do passeio, que nem os sindicatos nem a polícia de segurança pública haviam de fazer caso. A consagração da geringonça foi, no meu sincero parecer, o gesto mais democrático que nos conta a história recente da rua de São Bento. O inusitado entendimento entre os quatro partidos que a compõe, configura a expressão cabal da vontade de uma maioria popular (ou a expressão titubeante da invontade de uma maioria popular… fica ao critério). Contudo, doze meses idos, têm todos a mesma cara de sonsos. A mesma cara de filhos da puta, sem esquerda nem direita, que lacrava as fronhas dos legitimistas e dos liberais há mais cem anos atrás. (4) Quando o meu avô me ensinou a gostar de política, a professora primária ensinava-me a propriedade comutativa da multiplicação. Consta que os anos apenas se somam, mas depois os velhos ficam velhos, e os novos ficam velhos, e hoje, quando tento inquieta-lo com as letras gordas dos jornais, ele já só consegue escarnece-los a todos, augurando-lhes a vala comum. Estou a ficar parecido com ele. Talvez ele seja um ser humano um pouco mais esperançoso que eu, mas isso nada tem que ver com a idade. O meu avô é um homem esperançoso, não por ter 78 anos, mas por ter nascido em 1938. O meu avô é um homem esperançoso porque atende o telemóvel quando está a fazer a barba.
– Estou!
– Estou.
– Quem fala?
– Sou eu avô.
– Ah, não vi pá. Estou sem óculos.
– Porquê?
– Pá, estou a passar o creme de barbear.
– E porque é que atendeste o telemóvel se estavas a passar o creme de barbear? Vá, já te ligo…
Desliguei e pus-me a pensar, porque raio atende ele o telemóvel enquanto faz a barba. Os velhos atendem impreterivelmente o telemóvel. Serão isto vestígios da lembrança do sempre anónimo toque sonoro dos telefones fixos? O telefone do meu avô, bem me lembro dele, era uma caixa preta com uma roda que continha dez buracos numerados. Não tinha visor nem guardava mensagens. Todas as chamadas eram anónimas até se ouvir a voz do outro lado. O velho nasceu num tempo em que perder uma chamada era realmente perder qualquer coisa. E quanta esperança cabe em qualquer coisa que se pode perder… Eu nasci num tempo, e num lugar, em que se sabe quase tudo e não se perde quase nada. É absurdo pedir esperança a quem não pode perder quase nada. (3) Jugava que me tinha livrado da caspa, mas no último mês, fui acossado por um nevão permanente que me molestou o couro cabeludo. Deve ser do carrapito. Aproveitei o facto de estar sozinho no elevador para empreender uma valente coçada, daquelas de ralar o coco. (2) Já quase perfurava o crânio, deixando escarpar, não só a caspa, mas também a pouca inteligência que me restava, eis senão quando o elevador interrompe o seu percurso de forma inesperada. Abre-se a porta e vejo, do lado de fora, a criatura mais bela que conheço. Era ela. Ela menos cinco. Entrou e cumprimentou-me com alguma repugnância, dada a calamitosa avalanche que flagelou as ombreiras do meu casaco. Tentei sacudi-las com discrição enquanto a saudava embaraçosamente: “então, estás boa?” Ela acabou por rir da situação e até sacudiu a caspa que me ficara retida nas costuras no colarinho. Descemos os dois restantes andares mas isso já não interessa nada. Foi tudo tão rápido. Entre o piso 2 e o piso 0 nem tivemos tempo para falar. Saímos do elevador do chão do Loureiro, andámos cerca de 30 metros até à rua da Madalena, dissemos aquelas coisa triviais que dizemos sempre, e seguimos em caminhos opostos.

Esta mulher, diante de quem me apresento tão embaraçado, conhecendo-me bem, conhece ainda melhor a caricatura que fiz de mim próprio. Para ser justo (mais comigo do que com ela) diria que me viu expressar os sentimentos que lhe tinha, direta ou tacitamente, mas sempre de forma bastante ridícula. Da última vez, enquanto rodávamos por Lisboa, deu-me para escalar até ao segundo andar do prédio onde ela habitava, e o que há de mais ridículo nesta incumbência a que me propus, não é tanto a falta de noção de perigo, mas a inutilidade de tal empreitada. Os homens apaixonados conseguem fazer figuras verdadeiramente lamentáveis. Não deixam de ser engraçados… Se nos distanciarmos – dado que estes homens são insuportáveis, por passarem a maior parte do tempo bêbados de paixão, ou de álcool, ou de ambos – podemos até encontrar laivos de beleza nessa imprudência que os move. Beleza conceptual, daquela que a estética não explica. É que esta condição padece de uma tal fragilidade, em tudo contrária à posição de dominância em que o homem geralmente se coloca. Em determinado momento da paixão, estes homens ridículos que fazem figuras lamentáveis, untam a imagem destas mulheres encantadoras de uma tal pureza, a ponto de nem uma punheta conseguirem bater a pensar nelas. Passam o dia inteiro a pensar nelas. Acordam e são imediatamente capturados pela memória de um olhar mais íntimo e dialogante que tenham trocado, ou apenas pelo eco de uma palavra doce que delas tenham ouvido. Levam estas mulheres para o trabalho, sua imagem cristalizada por baixo das pálpebras, e ao longo do dia são vistos de olhos fechados a pensar em sabe-se lá o quê. Andam com elas o dia inteiro pela rua, na esperança que a imagem real dessas mulheres lhes obstrua a réplica trazida em pensamento. E para quê? Às vezes para trocarem meia dúzia de palavras acabrunhadas, dois beijinhos e virarem costas. São estes mesmos homens que ao chegarem a casa, antes de dormir, vão sentar-se e vão pensar noutra gaja qualquer para esvaziar os colhões. Que estúpidos… Eles querem amá-las. Aliás, eles querem fudê-las!, mas não querem macular essa ternura que ao vê-las gagueja, e sonha de dia, e chora de noite, com a brutalidade de uma mão que esgana um caralho. Estes homens são ridículos, e quanto melhor os conheço mais ridículos os acho. No entanto, observando-os com algum distanciamento (por estarem quase sempre bêbados e serem insuportáveis), reconheço que são belos. Vivem poeticamente e são belos.

fadinhos de amor e de ódio, e a cidade pintada por george grosz – parte 2