
Neugeborenes mit angezogenen beinen (1910) – Egon Schiele
É ao domingo que costumo confirmar a minha idiotice lacrada na cara dos outros idiotas. Uma toalha de motivos axadrezados macerada em vómito. Um desabamento de terras. A minha vida inteira. Estou farto. A indiferença é a mãe e a morte de tudo o que escrevo, de tudo o que digo. Ajo por inação. Não ajo… Observo. E é sempre assim.
Encostei-me ao balcão, pedi uma cerveja, e deixei-me estar ali a observá-los. Odeio-os a todos. São muito parecidos comigo os domingueiros de Lisboa. Abdicaram de muita coisa. Abdicaram de um estilo de vida para terem uma vida. Não trabalham à segunda, alguns não trabalham à terça. Talvez nem sequer trabalhem… Andam por aí. Já rodaram cidades dos quatro cantos do mundo sem um tostão no bolso, dormiram em hostels sujos, dormiram no chão, conheceram lugares. Fumaram e beberam as paisagens dos trópicos e dos círculos polares. Não fossem tão desmazelados diria que eram iguais a mim. Fizeram tudo o que eu fiz. São uns chatos. Eu cá gosto é dos meus amigos normais, os que não saem de casa ao domingo. O meu amigo que é engenheiro das nove da manhã às seis da tarde, o outro que mete conversa com toda a gente porque gosta genuinamente de pessoas, ainda aquele que casou aos vinte e sete, porque é um homem sério, e os homens sérios não esperam pelos trinta. Gosto deles. Mimam-me muito e sabem dar um arroto sem daí levantarem grande questão filosófica. Eu só complico, mas eles acham extraordinário tudo o que faço. Quando aterrei no continente asiático, conheci uma resma de europeus “extraordinários”. Eramos todos. Estávamos todos a viver versões diferentes da mesma história. A complicá-la para variar. Eles também se despediram dos seus empregos, terminaram os seus relacionamentos, foram-se embora. Há pessoas que são mais do verbo ir. Estão sempre a ir. Podem até ir novamente para o lugar de onde vieram, mas nunca regressam. Vão, sempre. Fomos, por tempo indeterminado, maturar as nossas ideias de merda para lugares que, de tão longínquos, nos obrigassem a pensar diferente. Partimos todos pela mesma razão; temos medo de morrer no lugar onde nascemos. Regressamos todos por razões diferentes. No meu caso, regressei porque me acabou o cacau. Gastei o que tinha e o que não tinha. E o que não tinha era bem mais do que o que tinha. Gastei-o todo… e nisto encosto-me ao balcão, peço uma cerveja, observo os fregueses, e reparo que as pessoas normais estacionaram o domingo e o resto da vida. Este bar está cheio de gente esquisita, e não mudou rigorosamente nada desde que aqui entrei.
Decidi dar-lhes uma oportunidade, ou aceitar a oportunidade que me deram, e parar de os censurar, ali, encostado ao balcão. Não conhecia ninguém. Um domingueiro simpático pagou-me uma aguardente e sugeriu que me juntasse à pândega. Passámos cerca de hora e meia a repetirmo-nos uns aos outros, sempre as mesmas histórias, as mesmas utopias. Só mudavam os nomes e os lugares. O que me amaciou o espírito, foi uma rapariguinha que volta e meia nos passava a ferro: “Vocês são é uns burgueses de merda! Havia de vos faltar pra comer… Desde quando é que gastar dinheiro em viagens é menos fútil do que gastá-lo noutra porra qualquer?” Chamava-se Mariana. Vociferava, depois encostava-se à parede, sozinha, e ficava calada; nós continuávamos a tertúlia sem nos contradizermos, e passado quinze minutos lá vinha ela incendiar-nos novamente. Havia alguma razão nas coisas que dizia. Gostei dela. Não tinha os dentes muito bonitos, mas paciência, eu também não tenho… O que me encantou foi mais a agudeza de espírito, do que a geometria mandibular da Mariana. Vi que não bebia nada e dirigi-me a ela para lhe oferecer uma bebida: “Olha, estes gajos são uns merdas, e eu também sou, mas vais ver que se beberes qualquer coisa ficamos todos adoráveis.” E ela “Não posso.” E eu “Porquê?” “Estou a amamentar.” “A sério?… onde é que deixaste a cria?” “Deixei-a com o pai.” “Vivem juntos?” “Não, vivemos separados.” Era assim, simultaneamente analítica, curta, e grossa, esta Mariana. “Vais ter uma noite insuportável – disse eu – se fosse a ti pirava-me já para casa.” Ela tirou-me a aguardente da mão e bebeu-a toda de penalty. Devolveu-me o copo vazio e encostou-se ao meu rosto dizendo: “eu é que sei quando é que vou pra casa.” Daí para a frente, foi um não parar de beber até ao extremo da abjeção. Malfadado leitinho… A páginas tantas, o tipo que me tinha oferecido a primeira aguardente, sugeriu um after em sua casa. Ele devia levar estranhos a casa todos os domingos… Esta semana calhou-me a mim, à Mariana e a mais uns quantos.
Era uma casa grande, com pé-direito alto, inserida num prédio de linhas austeras que presumi ser Estado Novo, anos 40/50, estilo português suave. Por dentro era terrível, parecia que o tipo tinha montado um escritório na sala estar. Até cadeiras com rodinhas havia… Corolário da insipiência estética ali manifestada, surge, no centro da sala, uma toalha de motivos axadrezados sobre tampo da mesa. O português ia ficando menos suave, à medida que avançávamos de divisão em divisão.
As horas passaram a correr. Já era de dia quando comecei a subir a Rua Damasceno Monteiro a caminho de minha casa. Podia ter sido uma noite triunfal, se a Mariana, a incendiária, não me tivesse vomitado nas calças. Estávamos todos sentados no sofá, ela encostou-se, pousou subtilmente a cabeça no meu colo, e deixou-me massajá-la na nuca e no pescoço. Entesou-me a boca ali contígua. Não sei se foi por isso, ou se em algum momento fechou os olhos, mas, assim que a senti golfar, já tinha o fígado dela todo feito em papinha entre as minhas pernas. Acho que ninguém reparou. Peguei nas minhas coisas, encostei-me à mesa da sala, esfreguei as calças à toalha de motivos axadrezados, só para limpar a maior, e fui-me embora.
A rua vinha toda aos S’s. Devia estar podre de bêbado esse Damasceno Monteiro. A meio do caminho lá dei com uma pastelaria aberta. Três senhoras, uma preta e duas brancas, muito caladinhas a tomar o pequeno-almoço, cada uma no seu regaço. Pouco passava das sete da manhã. As senhoras iam trabalhar. Tinham cara disso. A preta comia um salgado, as brancas comiam pastéis de nata. Todas acompanhavam com galão. “O que é que toma amigo?” Sem conseguir responder, deixei-me estar a olhar enevoadamente para o simpático senhor, que do lado de lá do balcão reiterou: “Temos cerveja.” Acenei com a cabeça. A primeira gota caiu-me imediatamente nas fraquezas. Foi direitinha à uretra. Empreendi um esforço hercúleo na retenção de me mijar ali mesmo, encostado ao balcão da pastelaria. Evitei-o a todo o custo. As calças iam para o lixo, desse por onde desse, e uma secreção a mais não faria diferença nenhuma (esta, ao menos, provinha das minhas entranhas). Mas fiquei apreensivo… pensei no salgadinho, nos pasteis de nata e nas três senhoras que estavam prestes a iniciar a semana, diante de um espetáculo escatológico no qual não tinham o mínimo interesse. Era o estilo delas, acordar cedinho e tomar o pequeno-almoço na pastelaria da esquina. Eu estava ali a magoar-lhes a vista. Peguei na cerveja, apertei a bexiga como me foi possível, e dirigi-me em grande esforço, pé ante pé, até à casa de banho. Ao contrário das casas de banho femininas, os urinóis não são lugares de socialização, são lugares de poesia. Foi tudo muito rápido. Pousei a cerveja no patamar de porcelana do urinol (junto ao autoclismo), desapertei a breguilha e comecei a mijar. Foi um jorro copioso e veemente. Quando julguei ter chegado a meio, deu-me uma valente sede, e trata de mandar outra golada. Entrou em circuito direto. Podia jurar que aquela dose de urina continha gás e quatro e meio de álcool. Estava a mijar a cerveja que bebia, tinha a certeza disso, eis senão quando sinto a terra tremer ligeiramente… Nunca tinha sentido a terra tremer. Com a mão esquerda agarrei-me à pixa, com a outra segurei a cerveja, e deixei-me estar por ali como se não fosse nada comigo. Tinha coisas importantes para terminar e não sabia qual ia ser a primeira, se a mija, se a cerveja. Acabou por ser o terramoto.
Ao sair, fechei a porta, encostei-me à entrada da pastelaria para perceber por que razão a terra havia tremido, mas ainda conseguia ouvir o chiar do autoclismo, nesse magnífico exercício hidráulico de empurrar a água para cima. É um som verdadeiramente dramático. Primeiro, a descarga irrompe sem subtileza nenhuma, feito cascata, sobre as paredes de porcelana, brancas, pontualmente nodoadas de humanidade. Terminando, a água sibila um suspiro nervoso, inquietante. Não a vemos correr, mas sabemos, pelo som, que se desloca clandestinamente para o depósito, onde aguardará a próxima descarga. Quando está prestes a terminar o seu percurso ascendente, o suspiro da água torna-se mais agudo. Parece mesmo que vai acontecer qualquer coisa de importante. E não. Silêncio apenas. Afinal não foi um terramoto. Desabou o muro de um condomínio privado situado nas traseiras da Damasceno Monteiro. Pergunto-me que espécie de estrume terão usado os responsáveis da obra, para cimentar uma edificação, cujas paredes viriam a desabar vinte anos volvidos… O prédio onde me encontrava, o da pastelaria, datava do século XVIII. A gaiola pombalina abana mas não cai. Vi aproximar-se um grupo de turistas japoneses, cerca de vinte, que acordaram antes das sete da manhã para se dedicarem a uma atividade de lazer. Os japoneses levam o lazer muito a sério, assim como levam a sério tudo o que fazem. Vinham acompanhados de uma jovem, presumivelmente lisboeta, que dava a entender ser versada na arte de contar historinhas a turistas… “Este edifício foi construído pelo Marquês de Pombal, depois do terramoto de 1755.” Ou muito me engano, ou Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º Conde de Oeiras e 1º Marquês de Pombal, não era propriamente o que se entende por empreiteiro da construção civil. Tentei abstrair-me do engodo com que a jovenzinha cativava a plateia, e concentrar-me somente no ruido do autoclismo que já quase não se fazia ouvir… Alguns turistas falavam de uma imponente estátua que avistaram através da janela do avião, durante a aterragem. Outros afirmavam estar hospedados em frente ao dito monumento, e terem notado certo aspeto simbólico no esplendor colossal da estátua, e na altivez com que a figura nela retratada, observava o dorso da cidade. Não são parvos de todo estes turistas. A jovenzinha rematou: “O Marquês de Pombal foi um grande político que salvou a cidade da catástrofe do terramoto, e modernizou o país inteiro!”
A miúda conseguiu galvanizar os turistas. Deixei de ouvir o som do autoclismo.
É verdade que se lá não estivesse a estátua desde 1934, talvez não tivéssemos tanta facilidade em sonegar as façanhas mais macabras do primeiro ministro de D. José, em detrimento da bajulação desmedida com que enaltecemos o lado mais nobre do seu legado. O Marquês tinha esse péssimo hábito de mandar queimar seres humanos. Seres humanos vivos, entenda-se. Só no massacre da Trafaria foram mais de cinco mil… Não falo dos Távoras, nem dos Jesuítas, que apesar de não merecerem a pira não me admirava que fossem uns grandes filhos da puta. No massacre da Trafaria, um dos últimos episódios do seu bárbaro ministério, tratavam-se somente de pescadores. Eram, na sua maioria, jovens, mas também havia velhos e crianças. Nas palavras do Camilo, “ensaiavam uma república do outro lado do rio.” O que fizeram estes pulhas, para enfurecer o desequilibrado que ostentava o título de Marquês, foi muito simples… Os jovens pescadores recusaram-se a cumprir o serviço militar obrigatório para se dedicarem inteiramente ao seu ganha pão. Pescar e vender o peixe. Numa manhã de Janeiro de 1777, sob a tutela do Marquês, um destacamento guiado pelo Intendente Pina Manique (outro virtuoso…), ateou fogo sob as casas dos pescadores que morreriam queimados, cercados pelo incendio.
Numa manhã de Janeiro de 2017, ouvi uma cidadã portuguesa tecer ininterruptos elogios, a respeito de um déspota de quem, muito particularmente, poderíamos afirmar ter ceifado mais vidas que as que salvou. Mas a culpa não é dela. A culpa é da estátua. Os símbolos, tornados monumento de ornamentação pública, cumprem esse desígnio de, sorrateiramente, moldar o subconsciente coletivo. Fica o que interessa… Os tiranos de hoje são os benfeitores de amanhã, é tudo uma questão de perspetiva. É de quem o apanhar, enquanto o amanhã se adentra no hoje, e mais, e cada vez mais cedo. Volta e meia precisamos de culpar alguém para nos perdoar-mos a nós próprios. Desta vez inventámos um velhote que pinta o cabelo de cor-de-laranja. Não é melhor nem pior que nós, é feito do mesmo estrume. Não pode fazer mais mal à humanidade do que eu e a Mariana fizemos àquela criança. Amanhã vai beber o cálcio da degradação, o leite fresco do miasma onde eu e a mãezinha dela mergulhámos. Vai pagar por nós, o messias. Mas, não será o velhote, o tirano, também ele uma espécie de messias? É muito tentador, olhar para estas personagens que facilmente nos irritam, e nelas imputar todos os males do mundo. Serve para nos distrair-mos de nós próprios, dos nossos vícios de merda. Os nossos medos têm tantas cores, tantas formas… simplifica-nos a existência, podermos dizer que somos “anti-trump”. Não sabemos por onde ir, então escolhemos por onde não ir. Somos seres tão básicos… Somos medo e movimento, desde o princípio dos tempos, e nada mais. O bem e o mal apareceram depois. São até conceitos recentes, adjacentes ao advento da civilização, coisa recentíssima na história da nossa espécie, coisa insignificante na história do planeta. Gostava de poder afirmar que os seres unicelulares, são, enfim, medo e movimento. Mas não posso. Não percebo nada de seres unicelulares. O que sei é que os homens bons estão para os homens maus, como o silêncio está para o ruído, como os dias de chuva estão para os dias de sol. E se há os que temem o silêncio e os que temem o ruído, os que preferem os dias de chuva e os que preferem os de sol, então invalida-se já a ideia de bem e de mal. Pelo menos num sentido absoluto. Dizia um tipo bem mais inteligente que eu, montado numa estátua bem mais singela que a do Marquês: “não vejo qualquer diferença entre um terramoto e um massacre, senão a diferença que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal.” A indiferença depois do medo. Toda a indiferença do mundo! É a única coisa que tenho, desde que notei que a vida me desacontece. Deixei de querer saber onde é que isto vai parar… “Isto”, sabemos, não passa daqui.