Ternura e filigrana

Não tenho uma posição acerca desta história, sou só um elemento dela.

Corria o ano de 1995. O cabrão entrou-me em casa enquanto estávamos a dormir. Não fez barulho nenhum. Desatou a subtrair-nos objetos, coisas, elementos destituídos de qualquer função vital, todavia, doces afagos para a ponta dos dedos. As coisas não nos definem, nós definimos as coisas. Eu tinha definido a minha televisão quadradona onde via os desenhos animados, as minhas cassetes de vídeo, o meu carro telecomandado. Era a minha vida toda em afagos. A minha mãe tinha definido a mesa de centro com acabamentos em mármore, onde eu me empoleirava para a ouvir gritar com ternura: “sai daí!” Era engraçado ouvi-la barafustar. A minha mãe nunca me dirigiu uma palavra que não estivesse carregada de ternura. Ela também tinha definido joias, coisas herdadas da minha avó que era minhota, e os minhotos têm uma relação peculiar com as joias. No tempo da minha avó, uma vez por ano, nas festividades, exibiam-se as joias ao peito, na periferia da fome (uns três dedos abaixo da filigrana). Congéneres, a fome e as joias só conheciam a abundância nos dias de festa. Ensinaram a esta gente do Minho que a virtude estava em deus, e por razões geográficas, políticas e religiosas cujo polpa não me apetece espremer, as casas de deus no noroeste verdejante português sempre exorbitaram em questões de adornos dourados.
Definimos todas estas coisas sem deixar que elas nos definissem. Mas a ausência das coisas? Pode definir-nos, a ausência das coisas? Ele veio de mansinho, maré de quadratura/quarto minguante, e levou tudo para alto mar; a televisão, as cassetes, o carro telecomandado, a mesa de mármore, as joias, a fome e a vontade de comer. Deve haver um tesouro perdido no fundo do mar onde ele guardou a minha infância toda. Claramente para deixá-la a salvo…

Diz quem conheceu os ardilosos ditames do Estado Novo (tão bem disfarçados de provincianismo) que a heroína era mais barata que o tabaco. Acredito que fosse um problema controlado, ou mesmo um não problema, dada a sua vocação de anulador químico de pensamento refratário. Portugal era pequeno e os portugueses eram poucos. Contudo, depois de se ter mudado o nome à ponte sobre o tejo, entraram em Portugal milhares de homens pretos e brancos que traziam nos vícios alucinogénios, a panaceia de uma guerra estúpida que tiveram de aturar. Estes homens viciados alargaram o tecido urbano do pequeno país, reproduziram-se, nessas incubadoras de párias a que gentilmente designamos por subúrbios, e o “não problema” alimentou-se deles, alojou-os no intestino grosso e deixou-se inchar até rebentar e esguichar as paredes de merda.
Nunca gostei de paredes sem história. No bairro onde eu nasci as paredes não têm história. A arquitetura e o urbanismo exerciam uma função educativa nas nossas cidades, até começarem a brotar casas como cogumelos. Os primeiros símios a habitar este monte de esterco alcatroado, eram mais velhos que as paredes mais antigas do bairro. Já todos eles haviam experimentado a canábis em Africa, e já os filhos, os degenerados, se preparavam para preencher o vazio identitário que lhes corria nas veias. Quando os lugares não têm história as pessoas fazem a história dos lugares. Uma parede com mais de 100 anos não é só o alicerce de uma casa velha, é um exercício de autoconsciência… Em menina, a minha avó vivia numa casa tradicional minhota, forrada a granito, loja para o gado, o espigueiro anexo. Não fumava tabaco, não sabia o que era a heroína, às vezes passava fome, mas tinha uma filigrana de oiro que pesava aproximadamente vinte gramas. Um dia deu-a à minha mãe. Em 1995, encostados a uma parede de cimento, uma parede sem história, o cabrão trocou vinte gramas de oiro com outro cabrão que lhe deu pouco mais de cinco. O sumo semissintético do alivio, oiro por papoilas, bye bye filigrana. Injetou-se ali mesmo; a seringa lancinante, o corpo entorpecido, e diante dos olhos sem horizonte, o amarelo do limão encarregava-se de pintar o remorso dos dias negros. Às vezes passava uma criança a jogar às escondidas. Às vezes essa criança era eu. Não gosto de paredes sem história.

O patife teve o desaforo de nos voltar a entrar em casa. Desta vez estávamos acordados. Parecia um cão, desconhecia os domínios do cérebro que excediam o paleocórtex (o que nem aos cães faz jus). Farejava desesperadamente a carteira da minha mãe, enquanto ela gritava com ele em agonia, num tom que em nada lembrava os gritos ternurentos com que me ralhava para descer da mesa de centro. Quando a encontrou agarraram-se os dois à carteira e começaram a rodopiar em torno dela. Ele o corifeu, o tornado, ela uma variante de vento húmido, lágrimas e leveza. Não deixavam de ser um homem e uma mulher em movimento… cheios de força e equilíbrio de força. Daria uma linda coreografia, tivesse sido ensaiada. Não foi. Para conseguir o que queria, o vilão pôs termo ao bailado. Abriu aquela mão venosa – aquela mão grande de homem acabado, aquela mão puída de feridas e buracos – puxou-a atrás das costas e enfiou-lhe um estaladão que podia abalroar uma parede. Ela caiu no chão, o vento despedaçado em cloreto de sódio. Ele olhava-a de cima para baixo e eu escondido, a consolidar o meu síndrome de plateia. Mas já tinha caído o pano… o que ela trazia vestido. Em vez de aplaudir os protagonistas da minha história – como faço com todas as histórias -, aproximei-me deles, e dirigindo-me ao vilão disse: “Para! Para pai!” Era mesmo muito pequenino… Nunca mais me exaltei com ninguém. Com porra nenhuma. Fui consolidando o meu síndrome de plateia. No limite, exalto-me comigo, com este vaticínio de repetir sempre os mesmo erros, mas são silenciosas e teatrais as contendas em que me debato. Pago para acreditar. Quanto aos outros, esses, assumidamente, nunca chegam a encolerizar-me. Era preciso ter uma grande imaginação para colocar tão elevadas expectativas nos outros, a ponto de me exaltar com o que quer que eles pudessem fazer.

Nunca mais o vi… Eu costumava gozar com os meus amigos, antes e depois de empreender-mos as mais imorais travessuras de criança “tenho uma sorte… fazemos todos merda e só vocês é que apanham de cinto!” A minha mãe, no pico da mágoa, lá me admoestava de quando em vez, mas nunca me deu um estalo na cara que não estivesse carregado de ternura. Esta história podia ser sobre mim e sobre ela. Dois retalhos de gente. Somos o que restou de um drogado que nos subtraiu objetos, e percebemos muito cedo que podíamos ser bem mais do que isso. Podíamos ser amor. Amor sem coisas. Somos o amor que habita o espaço vazio das coisas. Fazemos essa reciclagem. Mas não tenho uma posição acerca desta história, portanto ela é necessariamente sobre mim e sobre ele.

Voltei a encontra-lo mais tarde. Muito mais tarde. Considerava-me um homem crescido; estudava, trabalhava e apanhava o comboio todos os dias. Como homem crescido não me pareceu descabido julga-lo. Recusei-lhe a palavra, dei-lhe a minha melhor indiferença, a mais fotogénica. Condenei-lhe os vícios, os furtos, e sobretudo o abandono. Mas hoje a passagem do tempo parece uma grande partida que a vida me está a pregar. Farto-me de perder comboios. (Sigo pela gare, deambulante, vejo-os passar uns atrás do outros e esboço um riso sonoro e idiota. As pessoas olham incomodadas, depois começo a cantar muito alto e elas desviam imediatamente o olhar. Deixa-te andar valdevinos! Hoje vou despedir-me de mais um emprego. Grande filha da putice esta de não parar quieto. Já não sei fazer de outra maneira…) Seria uma covardia da minha parte apanhar o comboio dos homens crescidos, sabendo exatamente o que me espera à chegada. Prazer, depois dor, depois indiferença e uma televisão a cores… Sentado na gare da estação tenho mais consciência do tempo, e sempre passa uma gaja boa de vez em quando para se trocar dois dedos e olhar para as mamas. Sentado na gare da estação não julgo ninguém. Há males que vêm por bem, e não nada que ele tenha feito que eu não possa vir a imitar. Mas nunca mais o vi desde que voltei a ser criança.

– Aqui entre nós. Deste-me a vida e não me tiraste rigorosamente nada, porque não existe mais nada, ou seja, deste-me tudo. Mas este tudo que me deste é tão vazio. E é um vazio tão parecido com o que te preenchia… É o medo. E a cada dia que passa eu tenho mais genética para o medo, se é isso possível. Não quero narcóticos, fica descansado. No teu tempo um drogado tinha estatuto de criminoso, hoje um drogado é um doente mental. Eu não quero ser um doente mental. Não troco isto pelo Linhó, nem trocava o Linhó pelo Telhal, por mais tentadora que seja a proto-epopeia sadiana. Deixa estar. Não te vou passar esse recibo. Estou tão somente certo de que o vazio que me preenche é igual ao que te preenchia… Resta-me então procurar vícios que ainda não saibamos que existam. Vou vasculhar o mundo atrás de adições e obsessões tão nocivas, tão nulas de sentido como as de que te serviste, e vou esfregar-me nelas com o único corpo que tenho. Vou entregar-lhes o absurdo da minha vida e depois da dos outros, porque não sou corajoso o suficiente para me atirar da linha, nem covarde o suficiente para me fazer um homem. Eu também quero esvaziar o valor da filigrana. Conhecer-me para depois destruir-me. Como tu. Amo-te.

Ternura e filigrana

boca

quando descolámos os rostos
e atirámos a vertigem para cima da voz
perdemos todo o respeito pela natureza

regras; nós as criamos,
nós a quebramos,
inventámos palavras que
se fazem passar por pontes que
nunca nos levam ao outro lado – frugalidades,
pinceladas de saliva davam um rio de cuspe
as nossas palavras todas –

a boca! a boca é tão maior que a palavra…
e a tua é tão maior que a natureza…

por respeito à natureza, uma ode à tua boca.

 

 

boca

a mortalha do onde e do quando

limpei a estante e
guardei a tua fotografia,
mera impressão da tua expressão indelével

ficou somente a poeira das lágrimas
e o silêncio dos livros que me deste

ao fim ao cabo só serviam de
escadas para o trânsito do pó

não sei qual de nós dois levava
o corpo
mais vazio mais
cheio de pó

há coisas que não quero saber…

desculpa

habituei-me à covardia de pegar fogo a tudo,
esperando encontrar-te
fortuitamente
nas escadas do metro,
na fila do pão,
na livraria da esquina,

um livro cheio de pó não passa de
uma árvore morta: finas fatias
de madeira e alfabeto – já
não sou mais que a ausência do teu corpo em chamas,
e a perversão do teu vocabulário decotado.

a mortalha do onde e do quando

«(…) “já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda “ordem”; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio – definitivamente fora de foco – cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tendo medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes…” ” lá tá ele metafisicando, o especulativo… se largo as rédeas, ele dispara no bestialógico… não vem que não tem, esse papo já era” ela disse peremptória, despachando com censura, lacrando meu protesto, arquivando-o sem consulta, passando enfim no meu feixe de ideias uma sólida argola de ferro, pode ser até que eu tivesse algo (os cílios lânguidos, alongados?) de bovino, mas é preciso convir também em que ela exorbitou no atrevimento ao cometer tamanha violência no nariz do meu cavalo, embora ela mesmo se guardando nos frívolos direitos, esticando prazenteirissimamente a goma das palavras, mascando esta ou aquela como se fosse um elástico ou a porra do pai dela, “espelhicizando-se” a sacana, “metafisicando” lá à sua maneira, eu tinha de dar um fecha nessa farsa toda, já tinha ido muito longe c’o preâmbulo, bolinado demais a isca da pilantra, sentido que faltava pouco pr’ela me rasgar a boca na sua fisga “não dá pé mesmo, ô burucrata, mas não resisto a este registro, é importante: foi a duras penas que aprendi a transformar em graça o ferrete que carrego, sinto as mãos agora poderosamente livres para agir, evidentemente com um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade; é esta a iluminação que pode se revelar aos excluídos, juntamente com o arbítrio de usar uma chispa desta luz pra inflamar as folhas de qualquer código” (…)»

Raduan Nassar

«NEXT TO NOTHING

Não acordei com o teu corpo,
mas com um verso
que me parece agora
o mais triste do mundo:
Le tuve tan cerca.

Foi verdade, foi tão depressa
mentira – acabarmos juntos
no último bar. Ou apertar-te
em plena desrazão os ombros,
o pescoço baixo,
a cor indecisa dos cabelos.
Enquanto se partem tão
tristes os tristes
copos
que nessa noite derrubei – e eras tu.

Não sei o que te disse, que
outras partes de quem foste
toquei ou perdi. De qualquer modo,
perdi. E foi, só podia ser,
demasiado triste: dois corpos
que ninguém via desciam a Rua
da Misericórdia, já perto da manhã.
Aquela nenhuma distância
não pôde ser um beijo. Apenas derrota,
ressaca, mais uma canção sem nós.

Tu não sabes – e ainda bem – que
este homem te desejou todas as noites,
até que fechasse o bar. Este homem
que não deseja e que tem,
infelizmente, um nome igual ao meu.

Da próxima vez, quero estar menos
bêbado, saber se apanhámos
ou não o mesmo táxi. Mas
“da próxima vez” nunca existirá.»

Manuel de Freitas